QUEIME ANTES DE LER

IMG_3287.JPG

Sempre tive mania de escrever, desde pequena. Odiava ler até um certo ponto, mas escrever era o tempo todo. Vivo com papel caindo do bolso, porque qualquer um que eu encontro, vira diário.

Qualquer coisa que eu leio ou escuto, pode ser tornar um tweet, um post, e às vezes (juro), livro.

Mas não foi sempre assim. Sou um pouco adoradora da arte de ficar sozinha. Falar dos meus problemas pra alguém, jamais. Então descobri que escrever era uma forma muito melhor de aliviar qualquer coisa. Acontece que eu passei a escrever só quando estava na bosta. Nossa. Parece que não existe combustível melhor na vida pra criatividade do que momentos em que a vida tá só a pirambeira e você tá descendo sem parar.

Aí, eu queria matar todo mundo, gritar e ficar louca, mas não matava, nem gritava. Chegava em casa e escrevia. Cartas endereçadas a ninguém. Poemas, músicas!

Geralmente não aliviava. Nada, absolutamente nada. Mas era uma forma de me manifestar.

Enchi cerca de uns sete diários de frustração com a vida, pessoas amadas, amigos, família, eu mesma. Cada vez que terminava um, eu fechava e guardava.

Então mudei de casa e todos eles vieram encaixotados como se fossem valiosos. O último tinha sido fechado por volta de 2004, há tempos, e nunca mais eu tinha feito diários pessoais. Por quê? Não tenho ideia. Talvez tenha aprendido a lidar com algumas coisas que antes pareciam insuportáveis. Talvez eu não tenha mais tempo pra isso e no tempo que me sobra prefiro dormir e comer.

Mas o caso é que em uma tarde de domingo, tropecei numa dessas caixas e sentei para ler tudo.

NUNCA me arrependi tanto. Junto com aquelas caixas, eu abri outras dentro de mim que guardavam coisas horríveis que já tinham caído no esquecimento. Eu quis tacar tudo no lixo inconformada com tamanha tristeza e dor. Mas não podia permitir que alguém lesse. Não por ter algo comprometedor, mas por ninguém merecer saber e ser cúmplice de tanta amargura.

Rasguei as páginas em milhões de pedacinhos me sentindo melhor a cada folha que eu destruía. Pensei em tacar fogo em tudo. Mas não fiz isso com todas. A maioria eu deixei dentro de um balde com água por dias, até a tinta se dissolver e apagar tudo do papel. Até que tudo parecesse um monte de nada. E foi isso que todo aquele mal virou. Nada. Não existe mais. Não existe porque é passado, e não faz mais parte da minha vida. Não existe mais porque eu já não me lembro mais de boa parte do que tinha lá. E não existe mais porque não existe mais referência a elas, mais nada que possa me fazer lembrar.

Tô livre.

Ainda escrevo. Sem parar. Ainda tenho papéis caindo dos bolsos. Mais de cinco diários, um blog, uma coluna, um livro escrito e outro em andamento. Mas nada de tristeza concreta sobre meus problemas pessoais. Eles vêm. Eu sofro e deixo eles no esquecimento (mesmo que minha memória insuportável teime em segurar algumas coisas). Mas eu não registro mais nada que seja ruim e que me lembre de um eu que eu quero loucamente esquecer.

Esquecer é a chave do sucesso.

 

nickass

Anúncios

Uma opinião sobre “QUEIME ANTES DE LER

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s